#5- O Assassino do RPG
11:00MUDAMOS DE SITE : https://parceirosdecrime.com.br/2021/03/03/5-o-crime-do-rpg/
Carlos foi assassinado apenas porque estava de passagem, e Porque, naquela noite ele decidiu ir para casa usando o el búho, o ônibus noturno de Madrid.
Carlos Moreno Fernandez era um cavalheiro absolutamente normal. Um espanhol de 52 anos, funcionário de limpeza da empresa El Impecable Ibérico, na cidade de Madri e ganhava 60.000 pesetas por mês, que eram equivalentes a mais ou menos $360 euros. . Era um trabalho que ele fazia para sustentar sua esposa e três filhos, depois de passar muito tempo desempregado.
No início da manhã de sábado, 30 de abril de 1994, ele estava esperando o ônibus noturno, na parada da rua Bacares, no bairro Manoteras.
Ela voltava da habitual visita a casa de uma mulher, que não fica claro se era sua amiga ou sua amante, chamada Modesta, de 51 anos, também mãe de três, que morava na região. Ele a visitava periodicamente e ficava até mais tarde às sextas-feiras.
No dia que ele recebia seu salário ele costumava pagar para voltar para casa de táxi, mas naquela noite ele preferiu economizar o dinheiro e voltar de ônibus.
Essa seria a pior decisão da vida dele.
O corpo de Carlos Moreno foi encontrado no dia seguinte em uma ravina. A cena era horrível: eles o encontraram esfaqueado, cortado, estripado e com a coluna quebrada.
No bolso da calça encontraram, intocado , as 60.000 pesetas do salário. A hipótese de latrocinio, que é o roubo seguido de morte, foi descartado. Então, qual foi a razão pela qual assassinaram e brutalizaram alguém de forma tão violenta? A resposta é surpreendente: Carlos foi assassinado em um jogo.
Já se passaram 27 anos desde um dos crimes mais midiáticos da história da Espanha: o chamado 'crime do RPG'.
Um caso em que a mente perturbada de um estudante de química de 20 anos, levou a um assassinato horrível comandado por um jogo que ele mesmo inventou.
Este jovem e seu cumplice escolheram uma vítima ao acaso para cumprir uma das etapas de sua diversão.: MATAR
Eles correram atras de Carlos. Eles o assassinaram com crueldade e traição, e no final, apertaram as mãos, brindaram e foram dormir em paz, posteriormente detalhando o assassinato com detalhes em seu diário pessoal
O crime do RPG tem importância histórica por muitos motivos: um deles é porque foi o primeiro julgamento na Europa em que, do ponto de vista da psiquiatria forense, se levantou a diálogo sobre o diagnostico de dupla personalidade. Até porque, se fosse por alguns psiquiatras que avaliaram o assassino, ele nunca teria entrado na cadeia.
O caso também foi relevante para o debate sobre o sensacionalimo da mídia, que criminalizou os jogos de RPG, chegando a alegar na ocasião que eles causavam necrose no cérebro.
E em perspectiva, o caso é importante porque os dois assassinos estão à solta hoje.
Criança exemplar
Javier Rosado Calvo era um estudante do terceiro ano de Química e tinha 21 anos quando se tornou um assassino. Seu pai era engenheiro industrial e costumava jogar xadrez com ele; sua mãe, ela era uma enfermeira. Seu irmão, um ano mais velho, era seu colega de faculdade porque ele tinha repetido o terceiro ano na faculdade de química. Ele tinha uma vida confortável, não faltava nada. Embora quando criança ele tivesse sido um pouco doente, alérgico e tivesse sofrido de problemas intestinais, na adolescência ele se revelou um excelente aluno. Ele devorou livros e seguiu em curso sem esforço. Ele gostava de carisma e era capaz de ganhar a admiração de seus pares. Ninguém em seu ambiente familiar jamais imaginou que em sua mente inteligente ele aninhava tal sadismo.
De perto, porém, ele era um cara carismático, capaz de conquistar a admiração dos jovens. Especialmente de Félix, Um estudante da COU vindo de uma família desfeita cujos pais morreram de AIDS.
Félix Martínez Reséndiz era um estudante do ensino médio de uma família disfuncional. Seu pai tinha morrido de AIDS adquirida pelo uso de drogas, quando ele tinha apenas um ano de idade. Sua mãe, uma mexicana, também era viciada em drogas. Pouco depois de ficar viúvo, ela se casou novamente, mas esse casamento durou apenas quatro anos.
Ela também morreu de AIDS, dois anos antes de seu filho se tornar um criminoso temível.
Felix não tinha irmãos ou amigos proximos. Ele não gostava de esportes, não gostava de motos também não gostava de garotas. Ele era apaixonado por certas leituras fantásticas, gostava de escrever poemas e era obcecado por role-playing game, uma prática que vinha dos Estados Unidos e estava na moda na Espanha nos anos 90. Felix era uma horta perfeita onde Rosado podia cultivar seu mal.
Agora eu preciso fazer uma pausa para explicar um pouco sobre o polemico jogo que acabou dando nome a este caso:
A sigla RPG, vem da expressão em inglês “Role Playing Game”, define um estilo de jogo em que as pessoas interpretam seus personagens, criando narrativas, histórias e um enredo guiado por uma delas, que geralmente leva o nome de mestre do jogo.
Para iniciar uma partida de RPG, os jogadores criam personagens em classes estipuladas pelo tema do jogo, que pode ser de diversas vertentes. Você deverá definir dados pessoais, raça, classe e alguns atributos padrão para as virtudes dele, como força, destreza e vitalidade, anotando tudo em uma ficha que ficará com você durante todo o jogo.
Assim que a partida for iniciada, o mestre narrará a história para os jogadores, que devem interpretar seus personagens fielmente durante as conversas e decisões do grupo. O mestre pode, a qualquer momento, inserir elementos de sua criação ao enredo, dando liberdade para a criatividade dentro das aventuras.
Em alguns eventos da partida, como situações de sorte ou batalhas, é necessário o uso de dados para as tentativas de ataque e defesa dos personagens. Um número mínimo deverá ser atingido no dado para que um determinado jogador consiga golpear seus inimigos ou realizar tarefas difíceis, o que torna cada rodada imprevisível.
O RPG LIVE ACTION, também conhecido apenas como Live Action é uma das formas de se jogar RPG.
Em um live action você não imagina o cenário narrado pelo Mestre (ou Narrador), mas utiliza o espaço à sua volta como o cenário de jogo.
Em uma sessão de RPG comum, cada jogador pega a sua ficha e senta-se à mesa, como em um jogo qualquer, representando ali o seu papel sem nenhuma interação real com outros jogadores: Já o live action é o estilo de RPG que mais se aproximaria de um teatro de verdade. Você representa o seu personagem exatamente como um ator representaria um papel. É exatamente como uma peça de teatro, onde cada jogador representa um personagem: As diferenças são que esses personagens foram construídos antes com ajuda do mestre, e que estes personagens não seguem um roteiro ou ‘script’ pré-definido e sim improvisam ações baseados na construção e história criada para seus personagens.
Muitas vezes parece uma festa a fantasia, já que muitos jogadores costumam se vestir como seus personagens da mesma forma que um ator tem um figurino. Como essas festas costumam ser grandes, é comum também que exista mais de um mestre, que aqui pode ser chamado também de ‘narrador’, para ajudar o desenrolar da história. Uma diferença importante do live action é que não necessariamente existe uma aventura pré-determinada como no RPG de mesa comum.
Em geral, opta-se por live actions com ênfase totalmente social, onde tudo o que os jogadores podem fazer é conversar uns com os outros, buscando alianças, acordos ou, através da troca de idéias, superar algum desafio.
Entretanto, existem live actions onde o combate é o foco principal. Em geral, estes lives têm temática medieval e o foco é o combate com espadas, onde os jogadores efetivamente usam armaduras e utilizam armas. A grande maioria destes jogos são realizados nos Estados Unidos da América e Europa. Pelas próprias características de um live, ele é mais apropriado para aventuras onde interpretação e conversa sejam muito importantes, mesmo nesse estilo de jogo.
O fatídico encontro entre Rosado e Martínez ocorreu uma tarde, em um campo de futebol no bairro Chamartín, onde ambos moravam. Martinez estava feliz ao ver um jovem cinco anos mais velho que ele, com , 1,90 m de altura, e com grandes olhos azuis atrás de óculos grossos de plástico, recitando frases chocantes em algumas arquibancadas. Aquele jovem provou ter segurança invejável. Intrigado ele veio ver se aquele garoto estava jogando algum jogo de RPG.
O jovem que declamou em voz alta foi Javier Rosado, e o que ele estava gritando eram estrofes de livros de Howard Phillips Lovecraft o famoso escritor americano de romances e histórias de ficção científica, conhecido como HP LOVECRAFT
Para a decepção de Felix, Javier Rosado não era um bom ator e sabia como desempenhar o papel. Mas não importava muito, porque uma relação perigosamente próxima nasceu entre eles no mesmo dia. Tornaram-se inseparáveis. Félix Martínez encontrou em Javier Rosado, seu professor, seu irmão de alma, seu líder. E Javier em Felix, o amigo facilmente manipulavel, para uma aliança inquestionável que ele precisava para realizar seus desejos sombrios.
Raças
Javier Rosado sofria de problemas estomacais, estava doente e muito magro, o que muitas vezes o fazia ficar de cama sem sair de casa. Isso fez com que ele se tornasse uma pessoa amarga e com poucas amizades. No entanto, com Félix Martínez ele mostrava-se expansivo e próximo.
Foi durante uma convalescença de Rosado, desta vez por causa de uma lesão na perna. que Martinez pegou em sua casa um jogo de rpg para distrair a si mesmo e ao amigo. Javier imediatamente aprendeu os mecanismos do jogo e decidiu que inventaria um jogo infinitamente melhor: mais criativo e com suas próprias regras.
No começo era só mais um jogo de tabuleiro. Rosado inventou as regras e colocou a narrativa em movimento, enquanto Felix simplesmente escutava e seguia o fluxo do seu amigo.
Ele criou, então, Razas: um jogo onde a humanidade foi dividida em 39 raças ou arquétipos que ele havia inventariado com base em personagens e nomes novelísticos. A raça 37 correspondia a psicólogos, a de numero 25 correspondia a mulheres, a 22 aos homem, 1 ao bem e 7 ao mal.
Era um coquetel muito perigoso de ideias extremas com as quais ele conseguiu obcecar também Félix Martínez.
Às vezes, o jogo era para impedir a chegada de um navio no porto ou destruir uma cidade ou até matar uma mulher imaginária que traiu sua raça.
A verdade é que, com o passar do tempo, o tabuleiro era muito pequeno e chato.. Rosado, o líder indiscutível dessa dupla, decidiu então dar um passo adiante: o jogo havia chegado a um ponto que exigia que os jogadores saíssem uma noite em Madrid para matar uma jovem.
De fato, Rosado estava convencido de sua superioridade intelectual e decidiu jogar um jogo onde pudesse tirar uma vida humana , completamente certo de que nada aconteceria com ele. No entanto, a vítima importava. Ele preferia uma jovem. Isso foi escrito em seus diários terríveis que antes eram usados como prova no julgamento e dos quais as revistas e jornais tornariam público:
Vários meninos se reuniam com Javier e Félix à tarde para jogar o Razas. A proposta de Rosado de sair e matar alguém na vida real foi interpretada por todos como mais uma historia contada por Rosado, afinal ele era um cara vaidoso, vaidoso e fantasioso. Todos não levaram a sério, todos exceto Felix, que estava disposto a matar de verdade se o mestre ordenasse.
Na noite de sexta-feira, 29 de abril, Javier Rosado e Félix Martínez, planejaram em detalhes o crime macabro que realizariam como parte de um jogo criado por Javier. Eles tinham colocado roupas velhas para a ocasião -pois eles sabiam que iam se sujar. Eles tinham escolhido armas brancas e estavam usando luvas de látex que Javier tinha roubado do laboratório da universidade que ele estava frequentando. Eles já tinham alguns persongens criados sobre as possíveis vítimas... Um deles tinha sido intitulado BENITO, e representava o arquétipo de um homem que eles chamavam de "estúpido".
Seu primeiro objetivo era pegar e matar uma jovem…
Eles escolheram o bairro de Manoteras por dois motivos: era na periferia e era pouco percorrido à noite. A primeira pessoa a cruzar seu caminho foi descartada. Ele era um menino que eles viram em um ponto de ônibus com um walkman e “cara de idiota”, diria javier rosado imperturbável muito tempo depois.
Eles acabaram se falando sobre três ou quatro coisas triviais até o ônibus chegar e o homem então foi para casa. Ele não sabia que tinha sido salvo por algo tão simples, algo como não se encaixar nas regras do jogo malévolo que estipulava que, antes das 4 da manhã a vítima só poderia ser uma mulher.
Mais tarde eles avistaram uma velha que saiu para colocar o lixo pra fora, e por pouco escapou deles. Posteriormente, eles avistaram uma jovem, mas vendo que ela estava acompanhada por um homem, não se atreveram a escolhê-la como vítima. Pouco depois eles viram outro casal de namorados, o qual Rosado escreveria mais tarde em seu diário, demonstrando sua raiva: “Maldita mania de acompanhar as mulheres em casa!”
As horas foram passando e a frustração daqueles geeks armados foi aumentando. Eles precisavam matar. Eles precisavam que o relógio marcasse 4 da manhã. Essa era a hora em que as regras do jogo permitiam mudar as vítimas: a partir dessa hora qualquer um que cruzasse o seu caminho valeria. Um homem, por exemplo, e eles encontrariam o perfeito por volta das 4:15 da manhã em um ponto de ônibus isolado.
Carlos Moreno, casado e com 3 filhos, deixou a casa da amiga Modesta naquele dia. Era fim do mês e ele acabara de receber. Ninguém sabe por que ele não chamou um táxi. Ele se sentou no ponto de ônibus e viu dois jovens se aproximarem dele, que imediatamente começaram a intimidá-lo. Pediram-lhe um cigarro e logo após mostraram duas facas. Eles simularam um roubo, mas não estavam realmente interessados no dinheiro, então eles começaram a esfaqueá-lo por todo o corpo.
Carlos era baixo e atarracado, mas um homem de grande força. Ele resistiu ao ataque, mordeu Javier no dedo, arrancando parte de sua luva de látex e fazendo com que ele perdesse o relógio. A vítima resistiu ao ataque por cerca de 20 minutos, durante uma agonia indescritível em que os dois assassinos o espancaram implacavelmente. Carlos não morria e Javier Rosado ficou chateado com isso. "Quanto tempo leva para um idiota morrer!", Ele protestou mais tarde em seu diário.
Eles finalmente cortaram sua garganta e jogaram o corpo em uma barragem. Felix e Javier comemoraram o crime sem remorso. Eles voltaram para suas casas em Chamartín, jogaram fora as roupas ensanguentadas e dormiram profundamente. Enquanto isso, em Manoteras, um motorista de ônibus que havia parado para fumar um cigarro descobriu o corpo inerte de Carlos Moreno. Ao lado dele, um relógio.
A cena foi macabra: ele foi esfaqueado 19 vezes, cortado, estripado e teve a coluna quebrada. No bolso da calça, a polícia encontrou os 60.000 pesetas que ele havia recebido na sexta-feira. O motivo do roubo foi totalmente descartado. Um pedaço de uma luva de látex também foi encontrado em sua boca. Mas os investigadores não tinham ninguém para ligá-lo: os autores do crime não foram inscritos para nenhum crime, a vida da vítima foi investigada, em busca de um possível motivo, mas não havia nada para se segurar, nada que explicasse um crime tão cruel.
Meses se passaram e um assassinato horrendo parecia ficar impune. Houve também outro homem morto, na mesma área algumas semanas antes, cujo corpo apareceu com 70 facadas e sem os olhos. Isso levou a especulações e à mídia falando que um serial killer poderia ter circulado pela cidade.
Eles não estavam tão errados. Porque a verdade é que a ideia com que Javier Rosado estava obcecado não era continuar seus estudos em Química, mas continuar matando. Ele queria ir caçar de novo e fazer melhor do que da primeira vez.
Um padre, a mulher, a chave de tudo
Seis meses depois, juntos eles planejaram uma segunda excursão sangrenta. Rosado era muito vaidoso e começou a se gabar na frente de seus outros amigos de 17 anos: Jacobo, Javier e Enrique, amigos com os quais ele também jogou Razas, sobre o primeiro crime. Ele queria ser convincente para envolvê-los no próximo assassinato.
Rosado não esperava que Enrique acabasse confessando as intenções dele para outra pessoa
Para essa confissão, os jornais espanhóis trouxeram duas versões: A primeira era a de Enrique confessara o que ouvira ao padre de seu bairro: ou seja, ele contou que Javier e Félix se gabaram de ter matado Carlos Moreno.
O padre então teria recomendado que o menino contasse tudo que ouviu ao pai. Seu pai então teria escutado tudo com atenção e foi em seguida relatar o ocorrido à polícia.
Na outra versão que encontrei: Tudo foi liberado graças ao testemunho da mãe de um adolescente, que veio à polícia contando uma história incrível.
A mulher teria dito que um velho amigo de seu filho, um garoto de 17 anos chamado Enrique, tinha ido à casa dela naquela tarde. O garoto contou como alguns amigos com quem ele costumava jogar rpg todos os dias lhe propuseram sair naquela noite para matar uma pessoa.
Para fazer isso, ele teria que usar luvas de látex, uma lanterna e uma arma branca. E Enrique acreditava plenamente que não era a primeira vez que matariam
Enrique disse que não tinha dúvidas, que tinha certeza que eles tinham cometido o crime, pois quando estavam ali juntos assistindo TV, acabaram se deparando com um programa de televisão que falava sobre o crime de Carlos Moreno, Javier teria então rido e corrigido o jornalista sobre a hora do assassinato, e sobre as armas empregadas... Além disso, ele deu detalhes que não tinham aparecido na imprensa, como que um dos assaltantes havia perdido um relógio na briga ou que eles tentaram tirar a traqueia da vitim pela boca
Mesmo que não fique claro qual das duas versão seja a mais correta, o que fica claro é que foi Enrique quem interviu, e sem essa intervenção, talvez o crime nunca tivesse sido solucionado.
Então o chefe da Homicídios, decidiu prender naquela noite os dois rapazes nomeados pelo denunciante, próximo a meia-noite de 4 de junho de 1994, no mesmo dia em que planejavam partir para sua "segunda presa". Eles já tinham comprado as luvas de látex. Eles foram presos e disponibilizados à justiça. Eles também obtiveram um mandado de busca para invadir suas casas.
Entrar no quarto de Javier Rosado lhes deu uma surpresa temível: o jovem tinha uma biblioteca completa de horror. Havia mais de 3.000 volumes de todos os sujeitos possíveis: desde manuais ocultos e obras do Marquês de Sade e Adolf Hitler, até revistas paranormais e manuais de rpg. Também encontraram quinze facas. Era um quarto sinistro.
Durante estas bucas Felix espontaneamente confessou que tinha participado do assassinato, embora tenha mentido pois disse que apenas seu amigo Javier havia esfaqueado Carlos Moreno.
Os agentes sabiam que havia duas armas e, além disso, na casa de Javier encontraram três folhas de registro digitadas em ambos os lados, um documento incomparável na história criminal espanhola. o.
Felizmente, Rosado e Martinez deixaram muitas pegadas para trás. O resto da luva na boca da vítima; O relógio de Felix que tinha caído no local e o diário detalhado de Rosado encontrado em sua casa... Nessa crônica de crime que foiconfiscada, ele contou que quando foi preso, meses depois, ele ainda estava usando um curativo no dedo ferido ao ter recebido a mordida de Moreno.
O diário de Javier Rosado, conficado pela policia, continha textos com todos os tipos de detalhes sobre o crime
Em seu diário íntimo Javier Rosado escreveu tudo. Seu sadismo encarnado no papel horrorizou até os pesquisadores mais antigos. A opinião pública ficou chocada. Qualquer parágrafo desse texto é chocante, e embora a defesa de Rosado tenha afirmado que o texto de seu diário era um relato fictício, parece claro que o que foi narrado lá se encaixa perfeitamente com os fatos ocorridos naquela noite de 30 de abril de 1994.
"Saímos às 13h30. Estávamos afiando facas, preparando nossas luvas e nos trocando. vestimos roupas velhas na expectativa de que as que usassemos ficaria suja...
Nós escolhemos o lugar com precisão. Memorizei o nome de várias ruas no caso de termos que sair correndo e na corrida tivermos que nos separar. Nós Concordamos que eu me jogaria por trás e agarraria a vítima enquanto ele o surpreenderia e o assustaria com uma faca grande.
Eu deveria cortar a garganta dele. Seria eu quem mataria a primeira vitima. Era preferível pegar uma mulher, jovem e bonita - (embora este último não fosse essencial, mas saudável), depois um velho ou uma criança.
Chegamos ao parque onde o crime deveria ser cometido, não havia absolutamente ninguém. Só três garotos passaram, eu também achei perigoso começar por eles. Nós decidimos então dar uma volta procurando por novas possíveis vítimas. Na rua Cuevas de Almanzora vimos uma morena que podia ter sido nossa primeira vítima. Mas ele entrou rapidamente em um carro . Nós lamentamos muito por não tê-la pego. Ela nos deixou com água na boca.
"A segunda possível vítima foi uma jovem de muito boa aparência, mas seu namorado a acompanhou em um carro nojento e a deixou lá. Fomos imediatamente atrás dela, que tinha ido por um beco. Entramos nele atrás dela só para ouvir uma porta fechando praticamente em nossos narizes. Desta vez, foram menos de dez segundos que nos separaram de nossa presa": "Também nos deparamos com um cara que saiu de um carro e passou por mim a menos de dez centímetros. Se ele fosse mulher, ele estaria morto, mas naquela hora ainda estávamos na limitação de poder matar apenas mulheres.
Depois fomos beber água para uma fonte na Rua Becares. No ponto de ônibus vimos um homem sentado. Ele era uma vítima quase perfeita.
Ele tinha o rosto de um idiota, um olhar feliz e orelhas cobertas por um walkman. Mas ele era um homem. Nós sentamos ao lado dele. Aqui a história se tornou quase irreal. O cara começou a falar conosco alegremente. Ele nos contou sobre sua vida. Nós respondemos com ganidos. Meu companheiro olhou para mim interrogativamente, mas eu me recusei a matá-lo. Uma lotação chegou e o cara saiu nela. [ ... ].
"Uma velha senhora que saiu para tirar o lixo escapou por um minuto, e dois casais de namorados ( maldita mania de acompanhar as mulheres até suas casas!)." Eram quatro e 15, hora em que tempo de proibição a homens iria acabar. Meu parceiro propôs pegar um táxi, roubar ele e cortar sua garganta. Eu recusei o plano. [ ... ]. Eu vi um cara caminhar em direção ao ponto de ônibus. Ele era gordinho e mais velho, com uma cara de bobo. Ele sentou na parada ... "
O plano era que sacariamos asfacas quando chegassemos à parada, nós o parariamos e pediriamos para ele mostrar o pescoço (não tão diretamente, é claro). Naquele momento, eu colocaria a faca na sua garganta e meu parceiro ao lado. A vítima estava usando sapatos imundos, e meias ridículas.A vítima estava usando sapatos imundos e meias ridículas. Ele era gordinho, rechonchudo, com uma cara alucinada que eu queria socar e um bilhete imaginário que dizia: "Eu quero morrer." Se tivesse sido as 1:30 da manhã, nada teria acontecido com ele, mas essa é a vida!
Ficamos diante dele, sacamos as facas. Ele ficou com medo vendo o tamanho impressionante da faca do meu parceiro. Meu companheiro olhou para ele e de vez em quando eu sorria para ele (hey, hey, hey).
-"Dissemos a ele que iríamos revistá-lo. Você se importa de colocar as mãos nas costas, eu disse. Ele hesitou, mas meu companheiro agarrou suas mãos e as colocou atrás dele. Eu comecei a ficar com raiva porque eu não podia ver seu pescoço bem.
Eu me agachei para esbofeteá-lo em um péssimo desempenho vulgar. Então Eu disse-lhe para levantar a cabeça, ele levantou, e enfiei a faca no pescoço dele. Ele emitiu um som estrangulado. Ele nos chamou de filhos da puta. Eu vi que eu só tinha aberto uma lacuna para ele. Meu parceiro já tinha começado a esfaqueá-lo no abdômen, mas nenhuma dessas facadas era realmente importante. Eu também não estava certo em esfaqueá-lo no pescoço. Ele começou a dizer "não, não" uma e outra vez. Ele me afastou com um empurrão e começou a correr. Corri atrás dele e consegui agarrá-lo. Agarrei-o por trás e tentei continuar cortando a garganta dele. Ouvi o rasgat de uma das minhas luvas. Continuamos lutando e rodando. "Joguei-o para o aterro, em direção ao parque, atrás do ponto de ônibus. Poderíamos matá-lo à vontade lá", disse meu parceiro. Ao ouvir isso, a presa foi debatida com muito mais força. Eu caí no aterro, fiquei meio atordoado com o golpe, mas meu parceiro já tinha descido para o aterro e continuava esfaqueando-o. Eu o agarrei por trás para imobilizá-lo para que meu parceiro pudesse esfaqueá-lo mais. A presa dobrou seus esforços. Ele gritou um pouco mais: 'Foda-se, não, não, não me mate'."
- Eu já estava começando a ficar irritado com o fato de que ele não morreu ou enfraqueceu, ja que eu já estava fraco o suficiente ...
-"Tive uma ideia terrível que nunca mais farei e que tirei do filme Hellraiser. Quando as cenóbitas do filme queriam alguém para não gritar, eles colocavam os dedos na boca. Ideia gloriosa para eles, mas que pena, porque ele acabou mordendo meu polegar. Quando ele me mordeu (eu tenho a cicatriz) eu coloquei meu dedo no olho dele"
-"Ele ainda estava vivo, sangrando por toda parte. Isso não me importava nem um pouco. É horrível o que é preciso para um idiota morrer (...) Estávamos batendo nele por quase 20 minutos e ele ainda estava tentando fazer barulhos. Isso é uma droga, cara! Meu parceiro chamou minha atenção para me dizer que eu tinha tirado suas entranhas (...) Eu vi uma porcaria esbranquiçada saindo do seu abdômen..."
-" Ao luar contemplamos nossa primeira vítima. Nós sorrimos e demos a mão.
"Pobre homem, ele não merecia o que aconteceu com ele. Foi uma desgraça... estávamos procurando adolescentes e não trabalhadores pobres. De qualquer forma, a vida é muito arruinada. Acho que há 30% de chance de a polícia me pegar. Se não, da próxima vez vai ser a vez de uma menina e vamos fazer muito melhor.
-"Meus sentimentos para cometer o assassinato em si não existiam, mostrando-me que minha mente estava fria e calculista em qualquer situação e me dando esperança para outras ações. Não senti remorso ou culpa, não sonhei com minha vítima, e não estava preocupado em ser pego. Foi só isso.
“No dia seguinte percebi a possibilidade de ser pego pela polícia. O relógio, o pedaço de luva, estava contra. Meu ponto fraco também é que ele havia me deixado cheio de feridas. "
Um louco?
Os dois culpados foram presos e o caso logo pulou na mídia. Javier Saavedra, advogado da acusação, lembrou anos depois no El Español o significado do assunto: "Deve-se lembrar que foi o primeiro julgamento na Europa em que a dupla personalidade foi levantada do ponto de vista da psiquiatria forense". O papel de Saavedra era mostrar que Rosado não era louco, que ele era responsável por suas ações e que não sofria de nenhum sofrimento psicológico, que ele era apenas um narcisista compulsivo que superestimou muito sua inteligência.
Javier Rosado tinha 20 anos quando os acontecimentos ocorreram, acontecimentos que, por sinal, ele nunca reconheceu. Ele estava estudando Ciências Químicas, ele tinha um arquivo normal, nada de especialmente brilhante, como foi dito na época. Veio de uma família normal, sem grandes problemas, seus pais e irmão garantiram aos psiquiatras que o estudaram que ele nunca havia mostrado nenhum transtorno mental, nem mesmo em raras vezes
Javier não era fã de jogos de RPG antes do crime, mas ele mesmo havia criado seu próprio jogo, chamado Razas. Os psiquiatras foram informados de que as mil páginas que ele havia escrito para seu jogo eram "uma ferramenta para expressar o modo de vida, os arquétipos". Esse jogo foi jogado por ele, Felix – seu cúmplice no crime de Carlos Moreno – e outros garotos quase diariamente em um centro cultural no bairro Chamartín.
O assassinato foi parte do desenvolvimento daquele jogo criado por Javier Rosado. Rosado produziu um personagem descrevendo sua vítima e chamando Benito. Ele avaliou suas qualidades e colocou uma nota alta sobre a força física. A conclusão com que definiu o personagem foi "lixo para sacrificar". Mas o papel era apenas uma desculpa, não o gatilho para o crime: Javier estava ansioso para viver essa experiência e seu jogo era o veículo para isso.
Rosado não conseguiu explicar em suas entrevistas psquiatras o que aquele jogo criado por ele claramente consiste . Felix Martinez, seu cúmplice, tentou explicar, segundo ele: "As raças consistem em levar uma qualidade, exagerar ao máximo e a partir daí criar personagens, são criaturas que Javier tirou de sua imaginação. O jogo teve 42 jogadas e cada jogada quatro níveis. Ele acabou acreditando em tudo e tem tantas personalidades quanto seu jogo."
No julgamento, psiquiatras e psicólogos discordavam entre si. Um dos melhores psiquiatras forenses da história da espanha, dr. García Andrade, alegou, como seu colega Dr. Carrasco, que Rosado sofria de um transtorno de personalidade múltipla. Querendo dizer, ele tinha um monte de personalidades, tanto quanto o seu jogo.
A dupla personalidade, cujo nome científico é transtorno dissociativo de identidade, é real e deixa marcas profundas nos pacientes.
“É um tipo de transtorno dissociativo caracterizado por dois ou mais estados de personalidade (também chamados alter egos ou estados do eu ou identidades) que se alternam. O transtorno inclui incapacidade de recordar eventos diários, informações pessoais importantes e/ou eventos traumáticos ou estressantes, todo os quais tipicamente não seriam normalmente perdidos com o esquecimento normal”, define o Manual MSD.
Anteriormente chamado de transtorno de personalidades múltiplas, esse distúrbio é estudado há décadas, mas ainda existem inconsistências acerca de sua origem e atuação dentro da mente humana. Uma das causas mais relacionadas é a de trauma opressivo na infância. Para exemplificar esse ponto, vamos relembrar de outro clássico da literatura, “Psicose”, escrito por Robert Bloch, e adaptado para as telonas pelo mestre do terror, Hitchcock.
O personagem principal da trama “Psicose” é Norman Bates, um homem de meia-idade que possui uma relação um tanto estranha com a mãe, Norma. Sabemos que o ciúme, possessividade e abuso psicológico eram comuns na infância de Norman, mas o que descobrimos só no final do livro, é que o homem encarna a personalidade da própria mãe, já morta. Ele usa suas roupas e se comporta como ela, já que essa segunda personalidade dele saberia lidar melhor com algumas situações.
Javier Rosado tentou mostrar sintomas desse transtorno de multi-personalidade. . As entrevistas com as tais personalidades são chocantes, e pode se ouvir frases como
"Antes do meu nascimento eu cometi suicídio mentalmente no oitavo EGB. Eu não tenho uma imagem de mim mesmo. Eu me vejo como dois autorretratos, duas fotos que estavam na minha casa, uma com cabelo encaracolado, sendo um menino gordo, pestilento, nojento chamado Fasein, e em outro, arrogante, que eu deduzo ser Mara. Houve uma rebelião na RU, que foi a guerra dos maras, foi quando tive uma decepção amorosa, minha depressão, Mara v. Fasein."
Fasein e Mara, são parte dos personagens do jogo.
Rosado disse aos psiquiatras que tinha 43 personalidades diferentes: "Eu jogo os dados e se o 26 sai eu tenho que agir como o 26º. Eu falo com eles, eles não me controlam, são companheiros invisíveis. O que mais me afeta é o 30, se chama Mara, Fasein é a raça a que pertenço."
Rosado, que sempre negou o crime e disse que a escrita em que narrou o crime de Moreno era uma ficção baseada no que ele havia lido no jornal sobre o assassinato do faxineiro.
Ele até deu uma explicação para a escrita terrível, para seu diário: segundo ele "A escrita do assassinato foi feita pela personalidade 20. ele disse que queria escrever algo. O 20 se chama Lucer, é um dos nomes de Lúcifer, é a reencarnação de Lúcifer que quer acabar com a ordem estabelecida e trará caos."
A investigação do assassinato tinha um grande desafio pela frente: descobrir o que estava passando pelas mentes desses dois jovens assassinos.
Felix Martinez se mostrou menos complexo. Você podia ver que ele tinha sido cooptado por Rosado de uma forma brutal. Seu passado vulnerável era uma possível causa para tal vício nas ideias cruéis de seu amigo. Assim que foi preso, ele reconheceu os fatos contra ele e pediu desculpas à família da vitima
Rosa, por outro lado, foi um desafio para especialistas que estudam o comportamento humano e os mecanismos da mente. Ele rejeitou seu envolvimento com o crime em todos os momentos e durante o julgamento mostrou uma atitude altiva, desafiadora e autoritária.
Tanto a mãe quanto o irmão mais velho de Javier Rosado reconheceram que não tinham observado nele qualquer comportamento que os ajudasse a pensar que precisavam de algum tratamento psiquiátrico. Eles não relataram distúrbios de memória, que ele falava sozinho, ou que ele tinha múltiplas personalidades. Eles alegaram que ele era introvertido, muito estudioso e um leitor voraz.
A chave do caso era tentar ver o que estava acontecendo em sua cabeça: os psicóticos não são responsáveis por suas ações e não têm consciência do "eu", mas os psicopatas tem e podem acabar na cadeia.
Os pais de Javier Rosado contrataram os serviços do professor de Psiquiatria Forense da Universidade Complutense de Madrid, José Antonio García Andrade. Com o profissional ele falou muito sobre sua invenção do jogo Razas e os personagens que ele havia criado. Ele disse a ele que se parecia com o próprio Cal:
"Sem Cal eu não seria quem eu sou. Com ele aprendi a aprender. Eu o conheci em 1988; Cal é dor; sofrimento abençoado. Ele ama facas, objetos afiados, ou qualquer coisa que possa causar dor, embora o que mais o fascina seja a dor da alma (...) Aprender a usar a dor é apreciá-la como prazer. A dor dos pontos que me deram no joelho quando tive um acidente é maior que orgasmo com uma mulher. Dor é melhor que prazer e mais barata (...) Cal disse que cometeu o crime do qual sou acusado. Ele faz isso para me machucar, para me ensinar, para me causar tristeza, desespero, mas Cal não mata, apenas tortura."
Seus ditados eram de colocar os cabelos em pé mesmo para o profissional mais frio. Para García Andrade, seu cliente era louco, psicótico e sofria de esquizofrenia paranoica, além de personalidade múltipla psicótica e amnésia dissociativa." Portanto, ele não poderia ser acusado de nenhum crime.
O tribunal também recebeu um relatório de psicólogos da Clínica Médica Forense de Madrid, Blanca Vázquez e Susana Esteban. Javier Rosado disse que leu muito e eles corroboraram que ele tinha uma cultura relativa do fantástico, mas também que ele não sabia coisas básicas da cultura geral, como quem era Martin Luther King.
O relatório que elas escreveram argumentava que Rosado era um psicopata responsável e condenável por suas ações, um trexo do relatório diz "Esse diagnóstico implica um transtorno de personalidade que não afeta sua capacidade de compreender e agir em tudo (...). O cara sabe o que quer fazer e quer fazer quando quer."
Para eles, em seu relatório de 21 páginas entregue em outubro de 1994, Javier Rosado "é um assunto altamente perigoso (...). Em circunstâncias favoráveis, ele poderia cometer qualquer crime violento e sádico. Ele odeia a sociedade e as pessoas, com as quais ele se sente apenas racionalmente envolvido. Buscar ativamente o reconhecimento social."
Duas semanas depois, o psiquiatra Juan José Carrasco Gómez e o médico legista Ramón Núñez Parras apresentaram outro estudo sobre Rosado. Concluíram que seus distúrbios não eram conscientemente procurados, porque alegam que seria muito difícil simular um quadro clínico tão complexo. E acrescentaram que não acreditavam que havia uma "garantia de evolução favorável".
Por sua vez, a família da vítima e seu advogado Dr. Javier Saavedra, aconselhado por outros psiquiatras e especialistas, argumentaram que Javier era um psicopata que possui todas as suas ações porque "se tivesse encontrado um guarda civil com a vítima, um psicótico teria cometido o crime de qualquer maneira, mas Javier Rosado, não: ele discerniu o perigo".
Saavedra assegurou que Rosado não só não era esquizofrênico, mas que ele era um psicopata responsável e consciente de tudo o que fazia porque "a linguagem do psicopata é estruturada, racional e lógica, como a de Javier; psicopatas são seres racionais, muito manipuladores, que enganam muito, aspiram ao poder e usam a linguagem. Enquanto o psicótico não está interessado no poder.
Quando o julgamento estava prestes a terminar Rosado escolheu a opção de dizer suas últimas palavras, em vez de permanecer em silêncio. Ele rejeitou a ideia de ser louco e, pelo contrário, alegou estar em seu juízo perfeito. Ele ainda reconheceu que empunhava a faca pequena para aquele crime: "A faca grande foi levada por Felix, não por mim...", desfilou.
A juíza María del Carmen Compaired mandou uma sentença: Rosado não era louco, ela enlouqueceu; ele não tinha dupla personalidade e estava plenamente ciente de suas ações. Félix Martínez, por sua vez, era para ela apenas o peão de Rosado, o companheiro que ela exigia para realizar seu crime
Em 18 de fevereiro de 1997, Rosado foi condenado a 42 anos e 2 meses de prisão por assassinato, roubo e conspiração. Seu cúmplice, Félix Martínez, foi condenado a 12 anos e 9 meses de prisão pelos mesmos crimes. Ele foi substancialmente reduzido pela pena por ser menor de idade.
Mas nenhum dos condenados cumpriria suas sentenças completas.
Na prisão, Félix Martínez, começou a estudar ciência da computação. Sua boa conduta e o fato de que ele foi responsável em suas tarefas designadas na cozinha, juntamente com seu verdadeiro arrependimento, determinaram sua saída antecipada da prisão. Ele serviu apenas 4 dos 12 anos que lhe foram impostos
Ele saiu da prisão, mas não foi direto para casa. Por mais de um ano ele teve que compartilhar um apartamento para prisioneiros administrado pela Fundação Horizontes Abertos, liderado pelo padre jesuíta Jaime Garralda. Saindo do apartamento, Felix decidiu refazer sua vida em Berlim. Ele conversou com o padrasto , que era o segundo marido de sua mãe e ambos viram que viver em outro país era a melhor maneira de escapar do cerco da imprensa.
Ele viveu vários anos na Alemanha, mas retornou a Madri em 2006. Desde então, ele vive no anonimato. Não tem redes sociais e nenhuma propriedade está listada em seu nome. Anos mais tarde visitou aa Fundação Horizontes Abertos para agradecer seu apoio, na ocasião ele disse:
"Eu já tenho minha vida organizada e queria agradecer. Não quero mais falar sobre isso. O RPG e aquele menino não existe mais, eles estão mortos. Eu sou outra pessoa agora.
Rosado aproveitou ao máximo o tempo de confinamento e tentou chamar a atenção novamente fazendo história.
Nos primeiros meses de condenação, ele passou muito tempo enchendo cadernos com seu jogo, Razas, enquanto recebia tratamento psiquiátrico. Depois, refugiou-se nos livros. Rosado tornou-se o primeiro prisioneiro na Espanha a terminar três carreiras universitárias durante seu confinamento: graduou-se em Química, Matemática e Engenharia Técnica em Ciência da Computação. Ele também estudou inglês. Ele seguiu com sua habilidade de surpreender a todos. Seu bom comportamento na pena e nas aulas de matemática que ele deu aos presos permitiram que ele reduzisse sua pena. Curiosamente, se ele tivesse sido declarado doente mental, ele teria entrado em uma ala psiquiátrica e talvez nunca tivesse saído.
Durante seu confinamento, Javier Rosado fez o que não havia feito no julgamento: ele se reconheceu como o autor do crime em uma carta que enviou ao jornal EL pais, onde Dizia o seguinte:
"O tempo passa... Finalmente vejo sentido na minha privação de liberdade, nove anos, seis meses e dois dias gera em você tanto sofrimento. A punição que estou pagando é justa com o que fiz. Obviamente, nunca mais farei o menor mal de ninguém. Eu disse ao advogado para checar o melhor procedimento para se desculpar com os parentes da vítima."
A carta foi mais uma tentativa de Rosado de convencer os juízes de seu arrependimento, algo que os promotores duvidaram, e assim tirar licenças fora da prisão.
"Javier Rosado é um psicopata, carece de empatia, sua inteligência não é emocional, mas descritiva e carece de sentimentos, mas ao mesmo tempo ele é muito inteligente e pode penetrar em sua mente e imaginar o que você pensa, embora ele seja incapaz de saber como você se sente", disse Pedro Martínez, promotor do Supremo Tribunal de Justiça de Madri na época.
Os diferentes conselhos de tratamento das três prisões por onde Passou (Valdemoro, Aranjuez e Soto del Real) também se opuseram às licenças porque não viam sinais de "arrependimento" nele.
Esperanza, Paloma e Carlos Moreno, filhos da vítima, não estavam de acordo com a liberdade antecipada dos assassinos.
Carlos Moreno Fernández era um homem que não gostava de noticiários, mas paradoxalmente acabou sendo a manchete sangrenta da mídia por décadas como vítima de um dos assassinatos mais macabros da criminologia espanhola.
Será que o jogo de decidir a vida e a morte para Javier e Felix vai acabar?
Embora muitos se perguntem, eles têm o privilégio de viver em liberdade absoluta, uma possibilidade de que Carlos Moreno Fernández foi cruelmente tirado daquela manhã escura e quente de Madri.
O caso explodiu na mídia, que o lançou campanhas e mais campanhas contra jogos de RPG. O jornalista Rafael Torres publicou uma matéria no jornal El Mundo em que afirmava que os jogos de RPG causavam necrose no cérebro de quem os jogava. Ele afirmou que jogar este jogo produzia "necrose fulminante nos tecidos da cabeça e do coração, além do desprezo pela realidade e ignorância" e promovia a psicopatia. O assunto que saiu de seu artigo cresceu como uma bola de neve. Somente em 1998, a decisão da Suprema Corte deixou claro que a função, como tal, não tinha nada a ver com isso.
Javier Rosado e Félix Martínez tinham realmente colocado em prática as ideias de um jogo, mas um jogo inventado por Javier, não um jogo de rpg. No entanto, o caso foi apelidado de "crime do RPG", a tal ponto que a sociedade inevitavelmente vinculou tais experiências lúdicas a patologias criminosas.
O próprio criminoso presunçoso, Javier Rosado, tinha menosprezado o jogo de rpg dizendo:
"O RPG me enoja. Eu só joguei Razas. É um jogo inventado por mim, no qual o acaso não intervém. É por isso que você joga sem dados. É um jogo de estratégia. O tempo não existe, o ato é irrelevante, não importa, a pessoa é irrelevante."
Os psiquiatras ficaram muito irritados ao ver que ele considerava seu jogo muito mais importante do que o jogo de RPG: era "seu trabalho", uma "filosofia total" à qual ele havia dedicado mais de mil páginas.
Tantos anos depois, a discussão ainda emergia estéril. A sentença de 25 de junho de 1998 removeu qualquer vislumbre de culpa sobre os jogos de rpg: os verdadeiros culpados foram Javier Rosado e Félix Martínez.
Alguns diretores de cinema tentaram aproveitar o fenômeno da mídia de jogos de rpg para filmar sobre o assunto. Um dos filmes inspirados no caso foi o espanhol Ninguém Sabe de Ninguém, de Mateo Gil, lançado em 1999 e que ganhou um prêmio Goya. Outro, foi Play to Kill, de Isidro Ortiz, muito mais parecido com a história real, e que foi produzido em 2003 para a televisão espanhola.
https://www.ondacero.es/programas/julia-en-la-onda/audios-podcast/territorios/negro/territorio-negro-el-crimen-del-rol_20161226586146400cf2187c0d2c3e11.html
https://www.elespanol.com/reportajes/20190629/tarda-morir-idiota-terrible-crimen-asesinos-sueltos/409709977_0.html
https://elcierredigital.com/sucesos/37281812/crimen-del-rol-primer-juicio-personalidad-multiple-atenuante.html
https://www.infobae.com/historias/2020/06/12/la-macabra-historia-de-los-jovenes-que-inventaron-un-atroz-juego-del-rol-y-salieron-a-matar-al-mas-tonto/
https://www.bing.com/search?q=o%20que%20%C3%A9%20rpg&pc=cosp&ptag=G6C24N6003AFDDBB03871&form=CONBNT&conlogo=CT3210127
https://wikitudo7.wordpress.com/2015/06/03/live-action-rpg/




















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