Caso #4 - O esquartejador de Pioz

12:00


Era quase de madrugada quado o telefone tocou no posto da Guarda Civil de Horche,  que fica na província espanhola de Guadalajara. 

 Do outro lado da linha, Um morador se queixava do mau cheiro vindo de uma casa vizinha em seu condominio

Por volta da 1h  da manhã, vários agentes chegaram à rua de Los Sauces, onde ficava a entrada do condomínio  La Arboleda, situado na periferia de Pioz, um pequeno povoado de  cerca de 3.500 habitantes, localzado na Espanha.

O mau cheiro e a falta de resposta de dentro da casa levaram os guardas a abrir a porta  usando uma cópia da  chave que um dos vizinhos tinha. 

A casa era no estilo chalé, cercada de vegetação, e por dentro estava quase vazia, praticamente não havia móveis, não havia sinais de vida ,  não tinha comida…  era mesmo como se fosse apenas um esconderijo temporário e não  uma habitação onde  poderia viver  uma familia … porém , mais adentro, em um canto desolado, podia se perceber  seis volumes misteriosos.

Quando os policiais se aproximaram puderam ver que esse volumes eram seis sacos  plástico grandes, desses usados para ensacar lixo, empilhados um sob o outro na principal sala de estar da casa, e era inegavelmente dali que vinha o terrível cheiro de morte

Ao abrir  um  desses sacos ,os policiais encontraram o tronco de um homem de aproximadamente 40 anos e em outro  encontraram seus outros membros.

 Dividido entre outros dois sacos, podia se encontrar  o corpo esquartejado de uma mulher que aparentemente tinha mais ou menos a mesma idade do homem

 E em mais dois sacos, estava os cadáveres completos de dois menores, um menino de 5 anos e uma menina de 1, ambos degolados.



“Assassinos profissionais. “Essa foi uma das primeiras conclusões dos investigadores ao observar a cena:  segundo eles, aquilo era um trabalho para mais de uma pessoa,  os assassinos teriam usado  “um cutelo ou um machado”para cometer o crime e  “Fizeram um trabalho minucioso.” Além disso, foram extremamente cuidadosos na hora da fuga. 

“Entre as poucas coisas encontradas na casa,  havia restos de documentos das vítimas que foram  propositalmente destruídos e que tiveram que ser reconstituídos pedaço por pedaço, para que  conseguissem checar sua origem.” 

Esse outro detalhe mostrava que:  quem quer que seja que tenha comitido essa barbárie,  estava preocupado tanto em não deixar provas quanto em dificultar a identificação de suas vítimas.

Situação essa que explica por que a confirmação da identidade do casal veio do Brasil, e não da Espanha,  afinal  o estado dos corpos  foi descrito como de  “brutal deterioração”,  depois de passarem pelo menos um mês em sacos plásticos. 


O fato de as fechaduras das portas não estarem forçadas levaram os investigadores a acreditar que os assassinos entraram na casa sem violência. Os policiais supunham que As vítimas conheciam  seus algozes e os deixaram passar, e pelo tipo de morte e pela “limpeza” da cena do crime, intuiram que poderia se tratar de “um ajuste de contas, provavelmente por drogas”, e os autores da chacina pareciam ter experiência nisso. 

A equipe que trabalhou no caso acreditava ter uma resposta para o fato da casa estar quase sem mobília, os investigadores acreditavam que “a família estava fugindo ou estava se escondendo”. E o estado de decomposição dos cadáveres indicavam que “estavam mortos havia pelo menos um mês”.

Aparentemente, “pela documentação encontrada por eles, tratava-se de uma família brasileira, um casal e seus dois filhos, mas os exames de DNA é que confirmariam suas identidades posteriormente.



Foram os familiares das vitimas que entraram em contato com o consulado do Brasil em Madri e  com o Ministério de Relações Exteriores brasileiro para tentar saber se eram seus parentes.

Do outro lado do mundo,  com as malas prontas, Walfran Campos Nogueira esperava o irmão retornar a ligação para acertarem a viagem para a Espanha. 

Walfran  estava com tudo pronto para viajar,  inclusive a passagem estava comprada para o dia 23 daquele mês, e a ansiedade pré viagem já tomava conta e ele então passou a mandar várias mensagens pro irmão para combinar os ultimos detalhes, mas o irmão apenas visualizava essas mensagens e não as respondia.

 


Uma reportagem. A ligação de um amigo. Uma pesquisa na internet.
 

Walfran tinha planos  em voltar a viver com o irmão e a cunhada, Janaína, e os dois filhos pequenos do casal, como sempre:  afinal eles já tinham morado juntos em A Coruña e Múrcia.  Desta vez todos planejaram ir  para uma casa de quatro quartos, com piscina e segurança em um complexo de condominio. Seu irmão tinha enviado fotos da casa, cujo aluguel seria dividido entre os dois. A mesma casa que viu na edição digital do EL PAÍS em João Pessoa (Paraíba) na segunda-feira 19 de setembro de 2016, depois de ficar sabendo  através da ligação de um amigo, que a imprensa local estava noticiando que uma família brasileira com duas crianças , de quatro e um ano tinha sido esquartejada na Espanha. A imagem dessa casa…. da piscina.. todo esse cenário  na tela do computador confirmou seus piores temores:

 “Meu irmão, minha cunhada, meus sobrinhos”. 

Todos eles: decapitados, esquartejados e enfiados em sacos plásticos há mais de um mês, tempo em que não teve nenhuma notícia deles.

De acordo com Walfran: “A última vez que falei com ele foi por WhatsApp, me contou como era a casa nova, estava feliz que eu estava indo e que minha mãe e minha irmã iam passar o Natal aqui com a gente. Ele tinha decidido que seu objetivo era trabalhar em uma casa funerária, um trabalho tranquilo que paga bem, e parar de ganhar míseros mil euros por mês com os quais não dava para nada”,

Esse ultimo contato foi  no dia 16 de agosto de 2016. Dias antes de ser assassinado, como determinaram depois as evidências.

Marcos não aguentava ficar muito tempo no mesmo lugar. Era uma pessoa com pretensões de grandeza, acostumado a viver acima das suas possibilidades: 

Seu irmão dizia que ele não sabia administrar bem o dinheiro. Ia acumulando dívidas. Certa vez Marcos Pediu um empréstimo a um banco para montar um café em A Coruña e fracassou, então se meteu no negócio de construção e também deu errado, no final sempre acabava trabalhando de churrasqueiro em algum restaurante brasileiro, ganhando mil euros por mês e um horário dividido que o obrigava a passar as horas mortas com pessoas as vezes de indoles duvidosas



Em uma entrevista para o jornal El Pais, Warfran disse:  “Meu irmão tinha muitos sonhos, queria ganhar dinheiro, mas as coisas não davam certo e mil euros não eram suficientes para seus sonhos”. 

Walfran, naquela altura, ja com mostras de falta de sono e cansado, achava que ele poderia ter se metido em alguma confusão feia por dinheiro e suspeitava que “os monstros que o mataram desse modo selvagem não devem estar mais na Espanha, mas quem deu a ordem para que fizessem isso, ainda está”.

Ele ainda Insistia que a Guarda Civil “deveria procurar pistas nos locais  de trabalho de Marcos. A última cadeia de restaurantes em que trabalhou, de acordo com seus familiares, era o restaurante Che, de origem argentina.

Marcos Nogueira se movimentou bastante pela Espanha. Primeiro viveu, em duas temporadas, em Corunha (Galícia), trabalhando numa padaria, segundo afirmaram seus compatriotas na cidade. Entre um período e outro voltou ao Brasil. Depois trabalhou em Múrcia e em Valência, aparentemente como camareiro. Em seguida tocou um restaurante em Valladolid e por fim trabalhou em outra casa de comida brasileira em Alcalá de Henares, enquanto viviam em Torrejón de Ardoz e depois em Pioz, para onde tinham se mudado somente dois meses antes, com um contrato de aluguel assinado por ele mesmo em meados de julho por 500 euros (cerca de R$ 1.800) por mês.

Definitivamente, Marcos tinha problemas econômicos e, embora seu  irmão não tenha dado detalhes para não atrapalhar a investigação , ele não acredittava que a familia fugia de alguém, e achava que a casa de Pioz era mais um esconderijo que outra coisa por ser longe de tudo.

De acordo com Walfran, que era o mais velho dos dois irmãos em uma família de seis órfãos de pai, Marcos “saía dos empregos porque não aguentava o gerente, ou porque não davam aumento, pelo menos era isso que contava”. 

Ele chegou a voltar para viver no Brasil em 2012 “pela crise na Espanha e porque tinha conhecido a Janaína pela Internet”. 

A família de Janaína, os Diniz, é conhecida em João Pessoa. 

O pai de Janaína tem um pequeno império de concessionárias de automóveis.  Ela  e marcos se casarm no Brasil em 2013. Depois foram para a Espanha, junto com sua primeira filha




Dívidas.

 Essa palavra ecoa quando se fala do objeto desse impiedoso crime quádruplo. Janaína tinha pedido mil euros para sua família recentemente, supostamente “para ir ao dentista e, especialmente, para pagar os dois meses de fiança pedidos para o aluguel”, segundo conta um parente. 

E esse mesmo parente afirma que Marcos se aborreceu quando soube que ela tinha pedido dinheiro a seus familiares, “porque , segund ele, iam achar que ele não era capaz de manter a própria família”.

Os investigadores consideravam as “contas pendentes” de Marcos. E pensam também nos “feios negócios ligados ao narcotráfico”, um obscuro nicho no qual  pressoras desesperadas recorren para afogar o desespero e conseguir dinheiro fácil e rápido. Mas também é um ninho de assassinos, como os que parecem ter desejado encerrar essas contas de uma vez por todas, “com seu próprio método”, cometendo um massacre.

Nos próximos dias o caso entrou em segredo de justiça, ao mesmo tempo em que foi feita a descoberta de um quinto parente  que também estava morando anteriormente com as vitimas na espanha:  alguém  que não havia dado sinais de vida, e que tampouco havia denunciado o desaparecimento de seus parentes, e que além do mais havia fugido para o Brasil assim que os cadáveres foram descobertos, Eis que entra em cena Patrick Nogueira...




 François Patrick Nogueira, aos 19 anos, já tinha antecedentes criminais 


Ele afirmava que teve uma infância difícil, que foi intimidado e provocado por colegas de classe, na escola, e que desde os 10 anos de idade começou a beber, a ponto de se considerar um viciado em álcool.

Durante a declaração, Patrick falou que “se defendia de forma violenta” do bullying e da perseguição dos colegas de classe e que, por causa do álcool, viu “sombras” e “imagens distorcidas da realidade”.

Quando Patrick tinha 16 anos, um professor de biologia foi ferido por ele com dois golpes de canivete, dentro de sala de aula, em um colégio particular em Altamira. Toda a ação foi resgistrada pelas câmeras do circuito interno.

Nas imagens, o professor aproxima-se da carteira do estudante. Neste momento, patrick retira um canivete da cintura e logo em seguida atinge o professor no pescoço e no abdômen. Alguns alunos percebem a agressão e correm assustados. Outros tentam deter o estudante.

Patrick então  foi apreendido e levado para a delegacia de Altamira, por tentativa de homicídio. Ele relatou à polícia que queria apenas dar um susto no professor porque ele teria feito brincadeiras em sala de aula. O professor foi levado para o Hospital Municipal e sobreviveu.




Patrick, dois anos depois, chegou à Espanha, estimulado por seu tio Walfran  para tentar se tornar um jogador de futebol de elite. Entrou na equipe de futebol de Torrejón e se inscreveu na academia. No entanto, apesar de treinar diariamente, em cinco meses não tinha nenhum amigo. “Todas as relações dele se baseavam no benefício que obtinha delas; na verdade, estava sozinho, e sua única conexão era a família”, Todos se lembram dele como uma pessoa introvertida, que “ficava na dele”.

Até chegar à Espanha, na casa do tio Marcos Campos, uma das quatro vítimas da chacina, Patrick Gouveia havia morado na Inglaterra e em Portugal. Nos dois países, chegou a fazer testes, passou por avaliações nos clubes locais, mas uma lesão no joelho o impediu de dar continuidade à carreira.

Após a frustração, distante da família, Walfran, ex-atleta profissional e mentor de Patrick em busca do sonho de ser jogador, fez o que qualquer parente faria. Pediu a Marcos que recebesse Patrick, que ajudasse o garoto no tratamento do joelho na Espanha. E foi nesse momento que “começou toda a tragédia”, como afirma Walfran Campos.

O garoto carinhoso e prestativo à família, como descreve o tio ex-jogador, mudou de comportamento no período em que passou a morar na Europa. 

Marcos chegou a comentar com a família no Brasil em mensagens de áudio, que vieram a público após serem divulgadas por uma rádio espanhola no dia 3 de novembro de 2016, que estava desapontado e preocupado com Patrick. 



A relação de Walfran e Patrick sempre foi próxima. Quando pequeno, era comum Patrick procurar o tio, então jogador de futebol, para pedir que ele o ajudasse em seu sonho. Walfran Campos, naquela altura, havia jogado no Botafogo-PB, Campinense, Ceará e passado um período de três anos no futebol português. O sonho de infância se tornou em um desejo palpável na juventude, apesar da vontade da família em tornar Patrick médico, assim como seu pai. Walfran conta que por conta disso, demorou a ajudar o sobrinho na questão, porque sabia que o futebol era uma área menos estável que a medicina.

Patrick chegou a treinar futebol em João Pessoa, após deixar o Pará, mas o sonho no mundo da bola não passava pelo Brasil. O jovem queria construir uma carreira na Europa. Em um clube inglês. Obcecado em concretizar a carreira como jogador, Patrick só avisou que viajaria para Europa, para fazer testes nos clubes ingleses, quando já havia comprado as passagens de avião. A pedido da irmã, mãe de Patrick, Walfran foi até o apartamento em que o jovem estava morando, em João Pessoa, um dia antes da viagem rumo a Londres.

Walfran explica que Soraia, mãe de Patrick, estava preocupada com a decisão do filho e pediu que o irmão aconselhasse, que ajudasse o jovem a se encaixar na empreitada, nas palavras de Walfran: Ele decidiu do nada, da noite para o dia, ir embora. Não avisou a ninguém, nem a mim, nem a ninguém. Quando eu descobri da sua viagem para a Europa, eu fui até a sua casa. Minha irmã me ligou. ‘Wal, vai ao apartamento que Patrick está indo embora e não avisou a ninguém. Os pais dele estavam no Pará e ele ia embora sem avisar a ninguém”

A conversa entre os dois aconteceu horas antes do embarque, marcado para meia-noite daquele dia. Segundo Walfran, foi na noite da conversa que antecedeu a ida de Patrick para Europa, que ele acabou conhecendo Marvin Henriques Correia, um amigo do sobrinho . O irmão de Marcos conta que notou um comportamento estranho por parte de Marvin e que chegou a alertar a irmã, Soraia, sobre a amizade dos dois.




“Eu achei esquisito o comportamento dele nesse dia. [Marvin] era um cara totalmente esquisito, sinceramente. Até comentei isso com a minha irmã. Falei ‘poxa, teu filho tá com um cara lá no apartamento com um comportamento esquisito’. Eu não o conhecia, passei a conhecer nesse dia. Eu achei esse cara muito louco. Ele junto com Patrick rindo do nada, uma coisa muito esquisita”, relatou Walfran.

Naquele dia, o tio, ex-jogador, orientou que Patrick fosse direto para Portugal, por ter amigos no país, pessoas que poderiam ajudar o jovem a se encaixar em algum clube. Mas Walfran conta que Patrick tinha o objetivo fixo de iniciar a carreira na Inglaterra, por ser fã do futebol inglês, por ter o sonho em fazer parte da categoria de base algum clube de lá.

Os testes foram feitos, mas o jovem não se encaixou. Uma lesão do joelho o atrapalhava. Talvez o clima frio londrino, completamente oposto ao tropical paraibano, ou as más condições de treino, , prejudicaram Patrick nas avaliações feitas nos clubes ingleses.

 Sem alternativas, ele procurou o tio, seu mentor no futebol, e decidiu seguir o conselho inicial. Arrumou as malas e foi para Portugal, onde o parente havia jogado por três temporadas e conhecia mais pessoas.

Em terras portuguesas, Patrick chegou a integrar um time na Ilha da Madeira, na cidade de Funchal, mas a lesão no joelho voltou a impedi-lo, e aos poucos o jovem via o sonho cada vez mais distante. “Ele se desesperou. Porque ele queria ser jogador e via que o sonho ia complicando cada vez mais por conta do joelho. Ele era um garoto novo, com 18 anos, um metro e oitenta, talvez um pouco mais, de boa estatura. Tinha qualidade para chegar, tinha chance, mas o joelho atrapalhava”, 

Para seguir acreditando na carreira nos campos, Patrick precisava tratar a lesão. O joelho doía, não permitia que treinasse. E foi neste momento, vendo que o pupilo não tinha opção além de procurar acompanhamento médico, impotente pela distância de um oceano atlântico, que Walfran recorreu a única pessoa que poderia dar apoio e entender o problema que o sobrinho passava: Marcos Campos, seu irmão, tio de Patrick, que naquela altura vivia ao lado, na Espanha.


Uma ligação telefônica entre Walfran e Marcos, um pedido de ajuda ao sobrinho de ambos, tudo isso acabou dando início a um relacionamento que culminou na morte do próprio Marcos e de sua família: Janaína Américos e seus dois filhos, David e Maria. 

Ao falar pela primeira vez sobre a possibilidade de receber Patrick, Marcos chegou a dizer “Patrick é meu sobrinho. Eu o amo, faço isso por ele, por minha irmã, pelo meu cunhado. Pode mandar ele vir”.

Com a ajuda de Walfran, Marcos e Patrick trocaram mensagens, se encontraram e moraram juntos por cerca de quatro meses. Um convívio relativamente curto, mas suficiente para que o jovem despertasse motivos para executar tios e primos.

Pelo que conta Walfran Campos, não foram somente as portas da casa que tinham sido abertas, ou ainda o carinho familiar oferecido, Marcos ajudou Patrick a superar a frustração com o futebol. Tentou encontrar um emprego no período em que o jovem não podia jogar bola devido à lesão no joelho. “Era muito difícil por ele não ter a documentação. Mas mesmo assim, Marcos ainda conseguiu, por alguns dias, trabalho para Patrick no restaurante onde ele trabalhava. Para que ele ganhasse um extra e ocupasse sua mente. Para que não ficasse o dia todo com a mente vazia dentro de casa”




E difícil identificar o exato momento no qual ocorreu a mudança de comportamento que transformou a viagem para Europa em busca do sonho de se tornar jogador de futebol na jornada de execução e esquartejamento de um casal e duas crianças, a família que acolheu e ajudou seu próprio algoz.

Instabilidade emocional reconhecida pelos parentes no Brasil. Frustração pela lesão e pela carreira natimorta. Indisposição com os familiares que tentaram ajudá-lo a superar o revés. O tio herói de Patrick preferiu não se arriscar a entender o que teria passado pela cabeça do então pupilo no dia 17 de agosto na pequena casa de Pioz. 



Segundo os agentes, várias evidências os fizeram suspeitar que Patrick era o autor dos crimes, entre elas o fato de que ele parou de ir para academia, que frequentava diariamente, imediatamente nos dias após a data do crime, 17 de agosto de 2016. Além disso, os agentes ficaram surpresos com a saída rápida de Patrick da Espanha para o Brasil, dias depois que os corpos foram achados.

No depoimento, os policiais informaram que imediatamente rastrearam o cartão de passagem do réu e descobriram que ele viajou da cidade de Alcalá de Henares, onde morava, para Pioz, no dia 17 de agosto de 2016, voltando para Alcalá no dia seguinte. Os dados triangulados do celular do jovem o colocava em Pioz no dia dos crimes.

Outro detalhe relatado pelos peritos que garantiram a suspeita em Patrick desde o início da investigação foram manchas de sangue no chão da residência em Alcalá de Henares, onde Patrick dividia apartamento com outras pessoas, que prestaram depoimento na quinta-feira (25). Parte das manchas foram localizadas por cães policiais, escondidas em uma parede que havia sido pintada recentemente.

Um dos ex-colegas de trabalho de Marcos Campos, que prestou depoimento como testemunha indicada pelo Ministério Público, contou que Marcos havia confessado que achou uma troca de mensagens entre a esposa e Patrick no celular de Janaína e que desconfiou de uma relação entre os dois.

Esta testemunha trabalhou com Marcos por alguns meses em 2015. Ele disse que após esse episódio, Marcos queria se afastar de Patrick, e que "embora desconfiasse do sobrinho, não acreditava que ele teria más intenções contra sua pessoa".

Outro ex-colega de trabalho de Marcos reconheceu que a vítima desconfiava do sobrinho. Ele relatou que o pai da família confessou que Patrick "tinha visões e ouvia vozes", e que por isso a filha de Marcos, a também vítima Maria Carolina, de 4 anos, "tinha medo dele".

Janaína dizia a parentes  que Patrick estava sempre criando problemas, que era uma pessoa que não se comovia, era muito frio”, ele passava o dia trancado em seu quarto, não cooperava em nenhuma tarefa doméstica e mostrava desprezo pelas crianças. “Um dia, quando a pequena Maria estava chorando, Patrick disse a Janaína que talvez pegasse as crianças e as deixaria na praça para ver se congelavam de frio ou se alguém as levaria”

Em outra ocasião, Marcos chegou a enfrentar o sobrinho ao vê-lo andando pela casa de cueca. “Ele disse para vestir as roupas, pois morava com a mulher e os filhos pequenos e que não era essa a maneira de se comportar em casa”.

 Os parentes de janaina diziam que ela nunca insinuou que Patrick pudesse estar obcecado por ela.




São quatro mensagens de áudio feitas por Marcos Campos e enviadas para a família no Brasil, explicando a mudança da casa de Torrejón para a de Pioz, cidades na região de Madri. Nas gravações, Marcos diz estar decepcionado com Patrick e que o jovem apresentava um comportamento diferente do que ele conhecia no Brasil. Em um dos áudios, Marcos dá detalhes da mudança de Patrick após ir morar na Europa.

O  tio do suspeito explica à família no Brasil que o jovem preferiu não se mudar com os tios e primos para Pioz.

Ainda de acordo com as gravações publicadas pela imprensa espanhola, Marcos Campos relata que havia combinado com o sobrinho de buscá-lo poucos dias depois da mudança. Mas, ao tentar falar com Patrick, não conseguiu contato por telefone, nem na casa onde residiam. A proprietária da casa informou a Marcos que Patrick Gouveia havia ido para um hotel.

Por fim, Marcos Campos lamenta a falta de notícias do sobrinho e comenta que Patrick só o procurava quando acabava o dinheiro que o pai mandava.

Confira a transcrição dos áudios de Marcos Campos sobre Patrick Gouveia


Gosto de ser mau

“Eu te digo hoje, de todo o coração, hoje eu recebo Patrick, e atendo Patrick, e escuto Patrick por Soraia e François. Porque Patrick me decepcionou muito. O Patrick que a gente conheceu, que a gente conheceu aí no Brasil não tem nada a ver. Ele disse para Janaína antes da gente se mudar, ‘eu sou uma pessoa má. Eu tenho uma carinha de bom, mas eu não sou uma pessoa boa, não, eu sou uma pessoa má. Eu gosto de ser mau”.


Mudança

“Já que eu me mudei na sexta-feira, e chamei Patrick para ir comigo. E ele disse ‘tio, eu não vou hoje, não. Vou dormir hoje aqui em Norma [dona do local onde a família morava antes de Pioz], onde a gente vivia na habitação, e sábado ou domingo eu vou para onde o senhor está indo morar. Eu falei ‘então, está certo’. Eu me mudei na sexta, fui sozinho, levei as malas. Eu, Maria, Janaína e David. E ele ficou. Eu fiquei de pegar ele no sábado ou no domingo, só que eu trabalhei sábado, domingo e segunda. E na terça-feira eu fui para pegar ele. Quando cheguei na terça-feira ele não estava. Disseram que ele tinha ido para um hotel. Não deixou nenhum bilhete para mim. O único bilhete que tinha sido deixado foi o rapaz que vive lá ou foi Norma, que deixou um bilhete em cima da mesa avisando que ele tinha ido para um hotel”.


Ligações

“Aí eu liguei segunda e terça para ele. Em todos os dias mandei uma mensagem de voz, para saber onde ele estava, o que tinha acontecido, para ver se levava ele lá para onde a gente estava morando. Ele não me respondeu, tava com o telefone apagado, como se tivesse bloqueado para receber minhas chamadas. Não sei por quê. E não recebeu e não me devolveu até hoje, não me chamou, não mandou nenhuma mensagem para mim”.


Espera por notícias

“Não sei, vou esperar para ver se ele liga, o que é que aconteceu como ele, para saber porque é que ele não me atende o telefone. E como ele está tranquilo, está recebendo dinheiro, está comendo fora. François está mandando dinheiro, por isso ele não me procura, claro. Não está precisando. Agora, quando aperta um pouquinho, ele vem, me procura, me chama, para ver o que acontece, né?”

Desde que tinha 12 anos, o paraibano Patrick Nogueira  convivia com a sensação de que algo de grave iria truncar sua vida de repente. E esse dia chegou em 17 de agosto de 2016, quando pegou um ônibus para a localidade espanhola de Pioz com a intenção de matar a facadas seu tio, a mulher dele e dois primos. Não houve lugar para improviso nessa chacina. Ele chegou a pesquisar na Internet qual seria o método mais rápido para eliminar os quatro parentes.

 “Como matar alguém em três segundos?”, Teria Patrick digitado num site de buscas, segundo fontes da investigação.



A campainha da casa número 594 da rua Los Sauces tocou por volta das quatro da tarde  no dia 16 de agosto de 2016. Naquele momento, só Janaína Santos e seus dois filhos, Maria Carolina, de quatro anos, e David, de um ano, estavam em casa. “Foi algo preparado. Ele chega quando sabe que Marcos não está. Porque sabia onde seu tio trabalhava e a que horas chegava”. A tia abriu a porta e se deparou com o jovem, que tinha comprado duas pizzas minutos antes. Com absoluta “frieza”, , Nogueira os convidou a comer. E assim fizeram. Almoçaram juntos no jardim, como prólogo da série de assassinatos que o acusado estava a ponto de cometer.

A primeira vítima foi Janaína. Enquanto ela lavava os pratos na pia, Nogueira se aproximou pelas costas e ficou a seu lado. Então, de surpresa, esfaqueou-a no pescoço. Sem que ela tivesse tempo de perceber nada. “Aí ele vai atrás de seus primos. E, com a mesma faca, também corta o pescoço deles”,  “Patrick, enquanto vai cometendo estes fatos, ainda Dedica o tempo livre a mandar selfies e mensagens de WhatsApp ao seu único amigo, Marvin Henriques Correia, de 18 anos, que está no Brasil. 

E, se as fotos já são assustadoras, os comentários são mais ainda. Porque ele escreve mensagens cômicas, zombando. Nas mensagens ele diz a seu amigo: ‘As crianças não correm quando vou matá-las’ e ‘As crianças se agarram enquanto vou matá-las’”.



“Ele ria das crianças porque não corriam!”,

Depois, ele se senta para descansar. Patrick limpa o chalé com água sanitária para que seu tio, não suspeitasse de nada. Inicialmente ele planejava enterrar a tia e os dois primos com uma pá que havia comprado por 60 euros (200 reais). Depois, diante da dificuldade de cavar no concreto, opta por esquartejar os corpos e guardá-los em quatro sacos de lixo grandes.. Toma banho. “Comenta para seu amigo Marvin que está com fome e que vai fazer um sanduíche de atum”, Termina de esfregar o chão. Já são 19h. Ainda faltam quatro horas para que o tio chegue do trabalho. 

“Quando deu 18h45 eu ainda estava enxaguando o chão. Estou feliz”, gaba-se.

Depois, o brasileiro sai para o jardim, onde fica esperando seu tio. Espera durante horas. “Tranquilamente. Com total frieza”, acrescentou o ministério público. Até que Marcos Santos chega, depois da dez horas da noite. Os dois conversam por meia hora antes de entrar na casa. O tio entra primeiro e o acusado vai atrás. “Atrás, atrás, atrás”, repete o advogado de acusação, acrescentando que nesse momento é desfechado o ataque. 

“‘Eu estava cara a cara com ele quando enfiei a faca’, escreveu Patrick depois em uma mensagem”, Marcos Santos também foi esfaqueado no pescoço. Patrick  queria cortar a jugular para que o tio perdesse o sangue  rapidamente”




Os psiquiatras descrevem Nogueira como um psicopata típico. Um sujeito que não está louco e distingue entre o bem e o mal com uma frieza que lembra o caso de Javier Rosado, autor de um horripilante crime cometido em 1994 na Espanha, que ele próprio narrou com detalhes em três páginas de um caderno. “É notável o quanto um idiota demora a morrer”, disse Rosado em seu diário, desprezando a vítima, que ele chamava de “a presa”.

O paraibano Patrick manifesta ao amigo Marvin a sua insatisfação por não ter conseguido resolver a chacina de uma só vez. O problema é o tio, que ainda estava no trabalho. Nas palavras dele “Chega aqui às 22h. Estou com fome. E esse viado não chega. Está tudo seco. E ter que sujar outra vez… Voltar a partir o corpo pela metade outra vez… Colocar os órgãos numa sacola… Depois limpar….”, conta ao amigo por WhatsApp. “Espero não falhar matando esse merda”, acrescentou em outra mensagem, que incorporava o link de um texto sobre “quanto tempo um corpo leva para se decompor” Seu amigo, no Brasil, acompanha com expectativa.

Marcos Campos, o tio, chega em casa às 22h15 e encontra o sobrinho, desafiador. “Olha só... Agora é a sua vez”, lhe diz, conforme apurou este jornal. Depois o esfaqueia no corredor. “Pelo menos meu tio é mais leve que a mulher dele. Mulher gorda da porra. Achei que era um homem, kkk”, conta ao amigo.

“Se me prendessem aqui eu não me importaria”

“Voltar a partir o corpo pela metade outra vez… Colocar os órgãos numa sacola… Depois limpar….”, queixou-se o assassino ao seu único amigo

O jovem pernoita no chalé, descansando, mas acordado. Descarta a ideia de fugir às 4h da madrugada pelo matagal. Teme ser descoberto pelo segurança do condomínio. Tem consciência do que fez. E se mostra preocupado em ir parar numa prisão brasileira. Volta a pegar o celular. “Aí me estuprariam 30 vezes. E depois apagariam uma vela no meu cu. Kkk. Se me prendessem aqui eu não me importaria… Ficaria vendo TV até os 80 anos”, diz a Correia, a quem – conforme contou às autoridades brasileiras – estava unido havia três anos por laços de amor, “mas não de homossexualidade”.segundo ele mesmo


Quando amanhece, Nogueira pega um ônibus com direção à localidade de Alcalá de Henares, nos arredores de Madri, onde divide apartamento com uma jovem brasileira e dois espanhóis. Chega levando um saco com chaves, um celular, luvas, fita adesiva, toalhas e tecidos manchados de sangue. Dias depois se desfaz dos utensílios numa lixeira. Joga-os em dias alternados, para não despertar suspeitas.


Morar num apartamento compartilhado não era a sua primeira opção. Mas foi a consequência do ultimato dado pelo tio Marcos, que ameaçou denunciá-lo por estar irregularmente na Espanha se não fosse embora da casa da família. Alguns meses antes, o assassino e as vítimas haviam morado juntos em Torrejón de Ardoz, também perto de Madri. Os pais do rapaz, residentes no Brasil, queriam que seu filho deixasse para trás uma vida turbulenta em João Pessoa para ser acolhido pelos parentes na Espanha.


Mas a convivência com os tios acabou sendo vulcânica. Conforme declarou o pai de Janaína, Wilton Diniz, em depoimento à polícia paraibana, “sabíamos que Patrick tinha esfaqueado um professor em 2013 e que tinha comportamentos estranhos, como andar nu pela casa”. Esse dado se soma à chave oferecida aos investigadores espanhóis pelo chefe de Marcos na churrascaria onde ele trabalhava, em Alcalá de Henares. Na opinião dele, seu funcionário “estava desequilibrado e pensava de forma obsessiva que sua esposa estava lhe traindo com seu sobrinho Patrick”.


“Não foi um impulso. Premeditei alguns dias antes”, confessou o criminoso aos investigadores.


Os cadáveres só foram encontrados um mês depois. E, dois dias depois da descoberta, Nogueira se mandou num voo para o Brasil. O chalé dos seus familiares se transformou num monumental set de televisão. E todos os olhares apontavam para ele, um rapaz de boné, de 20 anos, que jogava futebol em Torrejón de Ardoz e passava as tardes grudado no game Call of Duty.


A única pessoa na Espanha de quem Patrick se despediu foi Borja, o homem que havia lhe alugado um quarto. Para ele Patrick escreveu: “Estou no Brasil. Meu tio foi assassinado… A imprensa diz que fui eu… Desculpe não ter te avisado...”

Uma jovem que dividia apartamento com Patrick Nogueira na Espanha também prestou depoimento  e disse que o réu era obcecado com o tio. A testemunha contou que chegou a morar com Patrick entre junho e agosto de 2016. Segundo ela, eles se davam bem, saíam para beber às vezes e dividiam as tarefas domésticas sem problemas.

A testemunha reconheceu que em várias ocasiões Patrick se referia ao tio como uma pessoa má. Segundo a ex-colega de apartamento, Patrick “era muito obsessivo com o tio e o insultava”, e que sempre que alguém os visitava, ele falava de Marcos.


Ainda de acordo com a jovem, Patrick sempre foi uma pessoa “feliz e brincalhona” com ela, e que nunca notou um comportamento agressivo por parte dele. A primeira vez que percebeu algo estranho foi no dia 18 de agosto, data que seria um dia depois dos crimes.

Ela voltou de férias e passou algumas horas na casa em que dividia com Patrick antes de viajar para Badajoz por três dias e ao chegar  notou a casa desarrumada, haviam garrafas de bebidas espalhadas na mesa, vômito no banheiro, pratos sujos na pia e que o réu estava trancado no quarto.

No dia 28 de agosto, quando ela voltou de Badajoz, notou que Patrick continuava estranho. Ela relatou que quando foi se mudar, ele não a ajudou com a mudança, como havia prometido, e ao se despedir, disse que era a última vez que eles iam se ver.

Ainda conforme esta testemunha, Patrick sempre falou que teve problemas com a bebida desde criança , mas que todas as vezes em que saíram para beber, ele nunca chegou a passar dos limites.

Durante seu périplo brasileiro, o rapaz voltou a se encontrar com  Marvin Correia, também como voltou a beber e a fumar. 

Seu amigo contou posteriormente à polícia paraibana que respondeu às mensagens do assassino por “curiosidade” e porque não queria “que Patrick fosse preso”. Correia chegou a ser detido, mas foi posto em liberdade sem ser indiciado pouco tempo depois

Ainda de acordo com os policiais, a participação de Marvin Henriques foi confirmada após um amigo dele ter acesso ao seu celular e encontrar fotos dos corpos da família Nogueira esquartejada, imagens que teriam sido enviadas pelo próprio Patrick via aplicativo de celular.

O celular do amigo de Patrick foi encaminhado para a Polícia Federal, que após exames técnicos, confirmou que se tratavam de imagens verídicas e feitas pelo principal suspeito de matar e esquartejar Janaína, Marcos e as duas crianças em uma casa em Pioz, na região metropolitana de Madri, na Espanha.



Um adolescente brasileiro de 17 anos, identificado apenas como Victor, foi quem entregou os registros do crime à Polícia Federal no Brasil.

Ele recebeu, quase que por acaso, o telefone celular onde estavam registros de conversas que Patrick teve com um amigo, Marvin Correia, enquanto cometia os crimes que chocaram a Espanha, em 2016.

Victor trabalhava em uma assistência técnica, onde Marvin, deixou seu celular para consertar, alguns dias depois do crime, em 2016. Para dar um desconto no preço a Marvin, ele pediu o aparelho emprestado. O combinado era que ele consertaria o celular por um preço menor  se marvin emprestasse a ele o aparelho por alguns dias.

De início, o adolescente disse que não encontrou os registros, mas notou que na lixeira do celular havia registros de imagens. Foi só quando ele instalou o Whatsapp no aparelho que ele conseguiu ver tudo.



Segundo victor: "O aplicativo baixou todas as mensagens antigas. Foi quando vi e li tudo. Vi os corpos cortados, vi Patrick com o cadáver de um homem, li algumas conversas e entendi que meu amigo estava envolvido de alguma forma"

Durante alguns dias, ele não soube o que fazer. Então conversou com uma amiga, que foi à Polícia Federal relatar o caso.

Victor ainda levou um susto quando recebeu uma visita de Patrick, que havia voltado ao Brasil, e Marvin. No julgamento, ele contou que até hoje tem medo do jovem que matou seus familiares.

Ainda , segundo victor, os jovens ainda fizeram perguntas a ele "Ele me perguntou se eu achava que ele teria cometido o crime e eu perguntei por que pensaria isso. Foi por medo mesmo, foi uma surpresa vê-los ali e eu tive receio que me fizessem alguma coisa porque eu tinha as provas", afirmou.

Com o registro do crime no celular, Patrick acabou confessando que matou e esquartejar o tio Marcos, 41, a tia Janaína Santos Américo, 40, e os dois filhos do casal, Maria Carolina, 4, e David, 1.

Marvin chegou a se encontrar pessoalmente com Patrick pelo menos duas vezes em João Pessoa, segundo a polícia.




A conversa entre os dois acusados registrada pela polícia espanhola entre as 15h55 do dia 17 de agosto até as 6h57 do dia 18 do mesmo mês, ambos horários da Espanha, consta tanto no processo judicial que tramita no Brasil, referente à atuação de Marvin Henriques como partícipe, quanto no processo na Espanha contra Patrick Gouveia, assassino confesso. 

No conteúdo das mensagens, Patrick relata com detalhes como matou a tia e dois primos. Marvin pergunta qual das três vítimas ele matou primeiro e Patrick responde que “na mulher, depois a mais velha (se referindo  prima de 3 anos) e depois no moleque de um ano”.

Com frieza, Patrick Gouveia conta que cortou a garganta de Janaína e que seus primos ficaram gritando nesse momento. “As crianças ficaram gritando. Massa que os pirralhos nem correm, só ficam ‘travadão’. O pirralho de um ano falava algumas coisas, mas na hora falava nada, não”, detalhou Patrick.

Durante a conversa, Marvin se mostra compreensivo com o amigo e chega a dar dicas, como o fato de Patrick tentar enterrar os corpos e na forma de abandonar o casa onde a família foi assassinada. 

“Sai pela frente mesmo, de manhã, como se fosse caminhar ou algo do tipo. Sei lá. De madrugada pode parecer suspeito. Mas eles não vão descobrir nem tão cedo as mortes”, comentou Marvin.

De João Pessoa, por meio do aplicativo de mensagens, Marvin alerta Patrick em não deixar rastros na cena do crime. “Ajeita essas luvas direito. Deixa eu ver aqui o que mais. Tem alguma coisa por aí? Ou alguma coisa que ligue a você?”, após a resposta negativa de Patrick, o amigo acusado de participação no crime de Marcos Campos Nogueira responde.

“Beleza. Então está tranquilo, mas tem que ficar pensando minuciosamente, para não dar merda”, conclui Marvin. Em um outro momento, enquanto espera o Marcos retornar do trabalho, após matar a tia e os primos, esquartejá-los e limpar o local dos assassinatos, Patrick comenta que achou que fosse vomitar, mas que não sentiu nojo e chegou até a rir no início do esquartejamento e, por fim, a ter raiva pelo esforço de esquartejar as vítimas.

O assassino confesso explica que precisou cortar os corpos ao meio e separar os órgãos em outras sacolas. Por fim, após isolar em sacos plásticos, isolou as partes com fita adesiva, para que o odor demorasse a espalhar. “A mulher e as duas crianças foram para o saco. Estão guardados e a casa está limpa, me limpei. Estou só esperando o quarto integrante”, comentou Patrick a Marvin.

O Fantástico reproduziu algumas das mensagens, como aquela em que o suposto assassino narra ter chegado à casa trazendo pizzas, como se estivesse fazendo um visita de cortesia; que conversou com Janaína dos Santos, mulher do seu tio Marcos, antes de matá-la em primeiro lugar; a suposta sequência dos assassinatos  e como os dois amigos discutiram maneiras pelas quais Patrick,  poderia apagar as pistas do crime e fugir do chalé de Pioz sem despertar suspeitas.



Marvin Henriques Correia, de 18 anos, foi detido na Paraíba como suposto colaborador do crime.  


O pai de Marvin Henriques Correia, Percival Henriques, concedeu entrevista ao Correio Online nesta terça-feira (01) e contou como era a relação dos dois amigos. Ele traçou o perfil do filho. “Não quis fazer medicina, como a mãe, porque não conseguia ver sangue”, e do assassino confesso, François Patrick Nogueira Gouveia. De acordo com ele; “Patrick Era um rapaz inteligente, estudante de direito, acima da média. Até dizia para meu filho se espelhar nele”. Percival Henriques também comentou como foi à conversa entre os dois jovens e quando foi o último encontro deles e aponta o erro do filho. “Ele errou ao não contar nada para policia e para mim e alimentar uma curiosidade mórbida”, disse.

No depoimento dado à Polícia Civil, Marvin afirmou que não procurou a polícia por medo de Patrick Gouveia. 

Ainda de acordo a Polícia Civil, o estudante confirmou a participação no homicídio, no entanto, não tinha noção da dimensão do que aquela conversa com Patrick poderia causar. 

A polícia diz que Marvin não pode ser extraditado e deve responder processo no Brasil. 

A Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba chegou a decretar a prisão preventiva de Marvin Henriques  Marvin, porém pouco depois esse mandado foi revogado e voltou para casa onde cumpria medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento noturno e impedimento de se ausentar da Comarca sem autorização judicial. “A Justiça acatou um pedido da defesa, após revisar o decreto e entender que não há motivos para a prisão”,


Essa não foi a única confusão em que Marvin  se meteu, posteriormente ele foi acusado de ter estuprado uma menor de 13 anos, enquanto ele mesmo tinha 18 anos




Marvin em 2020, foi  preso em uma cela isolada no Complexo Penitenciário Romeu Gonçalves de Abrantes, o PB1, em Jacarapé. A decisão foi da juíza Francilúcia Rejane de Souza, atendendo a um pedido da defesa que requereu que o jovem tivesse a integridade física preservada.  Walfran disse em uma entrevista que um dos motivos dele ter voltado a cadeia foi o fato de ter mexido em sua tornozeira eletrõnica. 

Ele ainda aguarda julgamento sobre seus atos

Os dois acusados, na correspondência, se declaram um ao outro. Patrick comenta que precisava compartilhar o fato com alguém, mas que tinha medo de perder o amigo caso relatasse algo sobre os três primeiros homicídios: “Eu estou feliz que tu está de boa (sic). Eu fiquei com medo de tu dizer ‘boy, acabou’. Eu tenho medo de te perder, mas eu não podia não compartilhar contigo”, desabafou Patrick.

Marvin então envia uma mensagem rindo e chama o amigo de assassino. Patrick responde com uma reflexão. “Eu pensei que ia mudar algo na minha vida . Eu pensei que ia me sentir mais vivo”. O amigo responde explicando que não podia fazer nada, que ele era doente mesmo. Em outra troca de mensagens, os dois afirmam que amam um ao outro.

Patrick Gouveia, foi enquadrado por psiquiatras espanhóis como uma "pessoa desprovida de empatia", um psicopata com risco de reincidência e criminoso com alto grau de periculosidade. A revelação foi feita pela TVE, emissora do país europeu, após ter acesso ao laudo psiquiátrico de Patrick Gouveia, anexado ao processo que tramita na Justiça.

O exame psiquiátrico também classifica Patrick como uma pessoa consciente do que faz, muito inteligente e com total carência de sentimentos. Segundo os psiquiatras, o jovem possui uma absoluta falta de empatia e se mostrou incapaz de se colocar no lugar das suas vítimas. A análise de sanidade mental de Patrick foi solicitada pelo Ministério Público espanhol.

Os psiquiatras forenses estiveram com ele durante três sessões. O exame será uma das provas periciais para decidir a plena responsabilidade penal de Patrick Gouveia nos assassinatos do tio Marcos Campos Nogueira, da esposa dele, Janaína Santos Américo, e dos dois filhos pequenos do casal.




Em 2018 A Justiça espanhola condenou à prisão perpétua o brasileiro François Patrick Nogueira Gouveia, que admitiu ter matado dois tios e dois primos em 2016 . A prisão perpétua é a punição mais grave existente na Espanha, e pode ser revista a cada 25 anos. Patrick foi condenado à pena três vezes: pelas mortes dos primos e de Marcos. Pelo assassinato de Janaína, a punição é de 25 de anos prisão, segundo o jornal espanhol "El Mundo".

O julgamento ocorreu entre 24 e 31 de outubro. Mais de 65 pessoas prestaram depoimento no júri, entre eles familiares do assassino e das vítimas, policiais que trabalharam na investigação do crime e médicos e psicólogos forenses.


O júri declarou que Patrick Nogueira matou os tios e primos com intencionalidade, sem considerar qualquer defesa.


Tanto o Ministério Público espanhol como a acusação particular tinham pedido a prisão perpétua revisável. A defesa de Patrick Nogueira, por sua vez, recorreu e pediu a reclusão do réu por 25 anos alegando danos cerebrais que o colocavam em condição de doente.




Seeu fosse contar cada detalhe do julgamento e do recurso, daria um novo episodio para este podcast


Ele pegou a pena máxima em todos os aspectos, foi 9 votos a 0, foi 20 anos por cada assassinato, ou seja, ele pegou 80 anos, sendo que o limite de prisão máxima na Espanha são 40 anos. A prisão perpétua revisável é que a cada 20 ou 30 anos vão revisar se ele tem condições de estar na rua, sair da prisão. Mas, de acordo com os médicos forenses e com todo o histórico, provavelmente ele não saia, sendo de 30 a 40 anos o mínimo pra ele ficar na prisão, então ele não vai sair antes disso", explicou Walfran Campos, tio do assassino. 


Em 2020 A Justiça espanhola manteve a condenação a três penas de prisão perpétua do brasileiro Patrick Nogueira Gouveia, por ter matado o tio e dois primos em 2016 na cidade de Pioz,. Patrick também foi condenado a uma quarta pena, de 25 anos de prisão, pelo assassinato da esposa do tio dele, na mesma ocasião.

A nova sentença foi divulgada pela Segunda Câmara do Supremo Tribunal da Espanha , após negar o recurso da defesa de Patrick de que todas as penas fossem reunidas em uma só condenação.



A Suprema Corte negou o recurso e entendeu que “não faria sentido que a morte de três ou mais pessoas fosse punida com a mesma penalidade da morte de uma só pessoa”, e que não acredita que esta decisão viola o princípio jurídico que impede condenar uma pessoa duas vezes pelo mesmo crime, uma vez que foi levado em conta a idade das crianças para determinar o crime como homicídio qualificado, já que elas não tinham chances de defesa contra Patrick. 


Além desta decisão, a Justiça espanhola também confirma a condenação de Patrick para que pague uma indenização de 411.915 euros (R$ 2.468.411,83, em conversão direta), para a família das vítimas, assim como ao proprietário da casa onde o crime aconteceu. Neste último caso, para cobrir as despesas que o dono teve pela limpeza e reparos no imóvel. 



A curiosidade desse ultimo julgamento é que Patrick apareceu no julgamento quase irreconhecivel, e assustadoramente quase identico a Marvim, seu tio, walfran afirma que os dois continuaram mantendo uma amizade até hoje


Fontes:

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/05/05/justica-espanhola-mantem-prisao-perpetua-para-brasileiro-que-matou-familia.htm

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/01/internacional/1475321168_347825.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/23/internacional/1474632459_204503.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/18/internacional/1474204103_726612.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/20/internacional/1476989898_254598.html

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https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/um-ano-apos-chacina-na-espanha-mae-e-avo-de-vitimas-e-de-acusado-lamenta-sofro-todos-os-dias.ghtml

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https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2018/10/25/vitima-de-chacina-em-pioz-desconfiava-de-relacao-da-esposa-com-o-assassino-diz-testemunha.ghtml

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http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2016/11/vitima-de-chacina-na-espanha-revela-em-audios-preocupacao-com-suspeito.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/09/internacional/1486659213_963422.html

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2016/11/preso-por-chacina-na-espanha-foi-europa-pelo-sonho-de-jogar-futebol.html

https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2018/10/25/vitima-de-chacina-em-pioz-desconfiava-de-relacao-da-esposa-com-o-assassino-diz-testemunha.ghtml

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2016/10/preso-na-pb-deu-dicas-whatsapp-suspeito-de-chacina-na-espanha.html

https://correiodaparaiba.com.br/cidades/policial/pai-de-marvin-henriques-desabafa-o-erro-do-meu-filho-foi-nao-ter-contato-nada-a-policia-sobre-mortes-na-espanah/

https://www.youtube.com/watch?v=-6s2GyDp7Ug&list=PL3hOvxWBLDr9agCw0TzWf9A1hlW90TB4D&index=70

https://www.youtube.com/watch?v=LBeEFAOo5Bs

https://www.youtube.com/watch?v=r-4cBr-lzWA&list=PL3hOvxWBLDr9agCw0TzWf9A1hlW90TB4D&index=67

https://www.youtube.com/watch?v=jwwsoOoulyo&list=PL3hOvxWBLDr9agCw0TzWf9A1hlW90TB4D&index=69

https://www.youtube.com/watch?v=fvxlVmLhVuA

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